AUTOR: Leonardo Pereira Montejo 

Aristóteles e a mecânica contemporânea

 

Que ético é descartar o que não se tem nome. Como um glossário criado às ações, o mundo seria uma indistinta matéria; uma mesma matéria-prima em que se poderia fabricar de tudo, um mesmo fundamental conceito em que se poderia dissertar de tudo. O mundo seria como uma matéria adestrada. Para Aristóteles, pensador que dispensa maiores apresentações, a matéria passava a assumir um compromisso com o mundo quando ganhava, mais que naturalmente, um emprego, uma utilidade de carteira que fosse. Sob esse viés, a dita cuja matéria como um nada selvagem para deixar de ser somente matéria, iria precisar sempre de uma associação de sentido, sobretudo de cunho pragmático a partir do outro, ou melhor expressado, de uma função para consequentemente merecer denominação e retrato. Os objetos seriam como gestos nomeados. Um exemplo de bolso seria: uma cadeira deixaria de ser uma cadeira e estaria por retroceder para a sua forma original de matéria quando se rompesse e esperadamente perdesse seu emprego de ser um aposento. O trabalho seria como um dicionário, e aqueles itens cuja função se perde seriam nada mais que vazios vizinhos, irreconhecíveis. As matérias como areias simbólicas. Segundo essa perspectiva, o mundo seria um emprego para se fazer; uma serventia por que se procurar; infinita seria a sede de adestrar o mundo e convencê-lo a ter nossas faces por todo o globo, a nosso serviço. O freio de mão estaria a morar no outro, no relativo perceber de que enquanto para mim, algo poderia ser X, para o outro poderia ser Z ou mesmo A, e assim irremediável seria, na alegria de ser diferente. Sem embargo, os tempos foram crescendo feito relógios como sementes e o homem contemporâneo chegou a mesma epifania de Aristóteles, embora por distintos pensamentos e percepções. Ao fundo, com a obsolescência programada e a lógica capitalista, podemos identificar uma noética – o fundamento da coisa – não muito estranha, aliás, nada estranha: a mesma convicção de que as coisas são merecedoras de prestígio e nome com uma condição, uma propriedade que seja prestativa; o trabalho. A mecânica contemporânea reanimou essa impressão de que um se é importante somente quando prestativo, e de tal maneira autoritária que o anteriormente citado descanso passa a estar em risco; o descanso que vinha decorrente da alteridade, do dialógico entre não iguais. A cultura do trabalho e os demais valores responsáveis por ditar uma ética laboral são de cunho autoritário e mais que isso, discriminatório, no sentido de excludentes, no sentido de que a igualdade é engolida pelo mecânico da causa; diferentemente todos passam a ser iguais, a desempenhar o mesmo. A nova cadeira é o homem. Exilados de um descanso, do descanso de ser diferentes, a proposição aristotélica agora passa a ser descomedida e enviesada, pensada e utilizada majoritariamente para o lucro de algum terceiro. Os homens diferentes passam a ser iguais, uma etiqueta a estes é doutrinada e instruída a ser repassada por eles e para eles, de modo a se desperdiçar o gênero humano em um gênero mecânico, monótono. Para o igual se guarda menos piedade, e norteados por um sistema inteiro estabelecido às custas de um descanso, e de uma escola diversa, o homem naturalmente passa a ser a cadeira do outro, e de si mesmo. Como uma matéria inanimada qualquer, sem grandes distinções e sem grandes denominações, segundo o repertório teórico aristotélico, o homem eliminado de si mesmo, fugitivo de sua humanidade, passa a ser mecânico e assim a depender inteiramente de seu valor em seu trabalho. A lâmpada que não mais acende não é nada, e quem a troca subindo as escadas também deixa de ser, indistintos. O amor passou a ser um direito a ser conquistado como um vale alimentação ou vale transporte, será um vale-respeito.